O disco a ser discutido hoje é o “Two Star & The Dream Police” do cantor e compositor americano Michael Todd Gordon, mais conhecido como MK.gee. O disco de estreia do artista foi lançado em 9 de fevereiro de 2024 e continua sendo um dos discos mais elogiados do cenário indie/alternativo pela sua sonoridade única, imersiva e oitentista, onde o grande destaque é a guitarra de MK.gee que curiosamente não soa como uma guitarra no sentido tradicional, tendo um timbre único e que está sendo muito cobiçado e foi até usado já por artistas como Justin Bieber.
TRACKLIST:
- New Low
- How Many Miles
- Are You Looking Up?
- DNM
- You Got It
- Rylee & I
- Candy
- I Want
- Alesis
- Breakthespell
- Little Bit More
- Dream Police
Agora vamos falar das faixas:
- New Low: A primeira faixa já mostra sua sonoridade única e produção diferenciada, com uma bateria eletrônica pesada bem remanescente do rap e hip hop atual, muitos teclados que remetem diretamente a década de 80, a guitarra praticamente imperceptível pela sua sonoridade diferenciada e os vocais melódicos porém totalmente alterados com modulações e efeitos. A letra fala sobre como de vez em quando podemos nos sentir tão mal e derrotados que parece que atingimos um novo tipo de tristeza e muitas vezes não sabemos o porquê ou que tentamos mascarar essa tristeza com um sorriso ou uma cara totalmente nova, como diz o refrão “Sim, de vez em quando, você atinge um novo ponto baixo”.
- How Many Miles: A segunda canção já traz um ar mais leve, como uma canção de amor, uma bateria mais suave e uma maior presença da guitarra característica do cantor que atua como uma dobra para sua melodia vocal. a letra para mim fala sobre alguém que o eu lírico quer muito reencontrar mas sem que ele mesmo se perca e que para isso quer saber quantas milhas essa pessoa estaria longe dele.
- Are You Looking Up?: Na terceira faixa e um dos singles do disco, já dá mais destaque para a voz e a guitarra de MK.gee onde os instrumentos que predominam são estes, onde há uma clara influência de artistas como Phil Collins nesta faixa pela melodia e harmonia usada. A letra fala sobre alguém que se sente perdida e que espera por algo para fazê-la ir atrás do que quer, porém o questionamento de Ësta olhando para cima?” Pode querer dizer se ela está tentando ver o lado positivo de que ela consegue fazer aquilo, e que se está ela deveria simplesmente ir e fazer.
- DNM: Essa música já traz o lado experimental e barulhento da produção de MK.gee a tona com uma bateria extremamente saturada e lotada de reverb que quase domina totalmente a canção depois sendo acompanhada de um piano também altamente saturado porém expressivo que dá o tom da harmonia da música, além óbvio da guitarra característica do cantor. Sua voz é extremamente processada, tanto que quase se torna um instrumento a mais no arranjo. A letra, na minha opinião, fala sobre um casal que está passando por sérios problemas mas que acham melhor não conversar sobre, pois um nunca tentou falar com o outro sobre, e agora que está tudo acabado, porque precisam? A canção também tem claras inspirações em batidas de hip-hop e artistas como Prince, guardadas as devidas proporções.
- You Got It: A faixa traz elementos mais intimistas, sendo dominada por teclados e por um som de guitarra mais limpo vindo do artista, além de que sua voz toma um rumo diferente das outras, onde cantava de maneira mais aguda e rasgada, nessa faixa experimenta um timbre mais grave, pesado e sombrio para sua voz que combina com a estética da canção. A letra, em minha opinião, seria como se o eu lírico estivesse dizendo para a pessoa amada que mesmo que os tempos estejam difíceis e que as coisas não estejam tão fáceis, que ela vai conseguir passar por tudo isso porque ela consegue, ela é forte e que o amor deles vai curar todas essas feridas.
- Rylee & I: A música começa já com um som que ao mesmo tempo que é rítmico também tem uma característica harmônica dando o tom da canção e trazendo o tom oitentista ainda mais forte, lembrando artistas como Phil Collins, já a voz está mais centrada na composição da música e traz semelhanças de timbre e interpretação parecidas com cantores como Michael Jackson e Cindy Lauper. Nesta canção em específico, a guitarra é deixada mais de lado e dá centro para um piano que dá acentuação nos tempos fortes, trazendo ainda mais essa semelhança com a década de 80, porem o som do piano ao mesmo tempo que é orgânico tem uma característica eletrônica e distorcida, que lembra a própria técnica de desconstrução sonora que o artista faz em sua guitarra. Para mim, a letra fala em primeira pessoa sobre um eu lírico que está apaixonado por uma garota chamada Rylee que seria a pessoa que o traz para a realidade e para o mundo real, o tirando de suas inseguranças, medos e vícios, tanto que ele diz no refrão da canção “Sem mais IV; Eu me sinto vivo”, sendo que “IV” é uma gíria em inglês para “intravenous” que quer dizer “intravenosa”, que faz alusão a drogas intravenosas.
- Candy: A sétima música do trabalho traz de volta aquela sonoridade oitentista mais cheia de vida, com uma bateria envolvente, teclados pesados em sua sonoridade e as guitarras dobrando a melodia da voz, além de um solo de guitarra inspiradíssimo do músico, que traz ainda mais essa cara “anos 80”para a composição. A letra, para mim, fala de maneiras dúbia, de que Candy, citada na própria música, possa ser tanto uma paixão do eu lírico que está passando por problemas com vício, tornando difícil o relacionamento dos dois, e de que Candy é um nome para a própria droga, já que essa é uma gíria em inglês para drogas sintéticas chamadas de “balas” pelo seu formato e modo de consumo.
- I Want: Esta canção como um todo traz uma estética de um estilo chamado “yacht rock”, que se formou no final dos anos 70 e meados dos 80, sendo que uma das principais bandas do estilo parecem ter grande influência nessa canção que é a banda TOTO. Tanto que a maneira que a música é construída com seus elementos e timbres faz alusão a banda como a bateria que faz alusão a uma sonoridade mais tropical e praiana como por exemplo da música “África”, além da já comentada guitarra que aqui ajuda mais no elemento rítmico e quem domina a parte mais harmônica são os teclados. A letra na minha opinião fala de um eu lírico.
- Alesis: Essa, na minha opinião, é a melhor faixa do disco. Uma música mais direta e com um estrutura mais “tradicional” porém bem definida, onde a música começa com uma bateria mais reta e tradicional que se estende até chegar em uma linha de guitarra com os acordes mais bem definidos que levam muito bem a música. Nessa faixa, a voz é mais clara e melódica, onde o cantor também pronuncia muito melhor cada palavra que quer dizer, de maneira mais tradicional e menos “murmurada” como fazia nas outras faixas. A letra, para mim, novamente fala sobre um relacionamento onde os dois personagens que compõem o casal são tóxicos um para o outro, não só por suas atitudes mas também em seus vícios que os ajudam a escapar da realidade contando mentiras um para o outro, porém parece que o protagonista sabe que esse “escapismo” é muito fácil e por isso quer tentar se conectar com sua parceira numa esperança de ter uma relação real.
- Breakthespell: Talvez a música mais fraca do disco, onde é movida principalmente pelas ambiências e atmosfera criada na canção além da guitarra do artista que domina todo o espectro. a voz é carregada de efeitos de afinação e transformadores vocais, onde praticamente se transforma em um dos instrumentos que integram o arranjo e a letra é a mais curta do disco e fala sobre como o protagonista que quebrar um certo “feitiço” que pode ser uma metáfora para estar apaixonado por uma pessoa, mas que mesmo que queira quebrá-lo ainda assim quer sentir o “gosto do seu beijo”. Para mim, o maior defeito da canção é ser longa demais, poderia ser mais curta mas intensa, onde cumpriria o seu papel como uma “little song” no disco.
- Little Bit More: A penúltima faixa da obra junta todos os elementos que compõem a obra, principalmente o lado atmosférico com a inclusão de um elemento essencial para o estilo de guitarra de MK.gee que são os falsos harmônicos, que o músico usa e abusa nessa faixa e em outras, mas como nesta a guitarra é mais destacada temos esse detalhe mais aparente. A letra, como várias outras, traz um ar de mistério mas, para mim, estão mais para rasas. Nela, o protagonista fala de como ele se sente salvo pela pessoa que o ama, que ela “abre a porta um pouco mais” e o tira de seu sofrimento.
- Dream Police: A última faixa do disco fecha o trabalho de maneira interessantíssima com uma faixa que ao mesmo tempo que traz de volta elementos já vistos no disco também traz novas experimentações do cantor e produtor com o uso de instrumentos de percussão não exatamente convencionais mas que remetem a cultura oriental como índia, por exemplo. Além de uma vibe anos 80 fortíssima que agora evoca artistas como The Police, na fase do Zenyatta Mondatta, e Supertramp. A letra, na minha interpretação, novamente fala sobre alguém apaixonado por uma pessoa que o magoou e agora sente que nem conseguira dormir, pois essa pessoa manda a “polícia do sonho” para persegui-lo.
Concluindo, o disco tem uma atmosfera única e para mim é um divisor de águas na música pop e contemporânea por sua sonoridade e construção única das composições. Porém minhas grandes críticas são o disco ser longo demais, tendo músicas que se estendem por um tempo desnecessário e cansando um pouco depois de um tempo. E também que as letras em geral são extremamente vagas, genéricas e às vezes parecem nem ter um sentido sincero e real, sendo só uma maneira pobre que o cantor encontrou de colocar palavras nas melodias criadas.
Mas em geral, a obra é extremamente coesa e única, sendo um dos melhores discos que ouvi nos últimos tempos. Pra “Two Star & The Dream Police” dou nota 8,5.